Ghost Walk em Zurique

 

Na sexta-feira passada fomos a uma Ghost Walk em Zurique. Já andava com vontade de ir desde o Halloween, mas na noite de dia 31 de Outubro tínhamos outros compromissos e acabou por ficar adiado (além de ter sido apenas uns quantos dias do nevão, o que tornaria uma caminhada pela parte velha da cidade uma aventura…).

Lá fomos nós, sem marcação como é suposto. O encontro é numa praça da Bahnhofstrasse, por volta das 21h. Assim que chegamos vemos um senhor meio sinistro, vestido de fato completo e com a cabeça totalmente rapada. O que acontece a seguir é o exemplo perfeito de uma caminhada interessante por zonas da cidade onde não iriamos à noite, ao som de histórias macabras mas divertidas, acompanhadas com a dose perfeita de humor inglês!

Cabeças cortadas, conflitos entre igrejas, fantasmas de pescadores e de jovens apaixonadas… Há de tudo no folklore de Zurique!

Além das histórias assustadoras, ouvimos também alguns factos turísticos interessantes que abriram o apetite para uma visita mais profunda aos monumentos da cidades e para umas quantas horas passadas na wikipedia a verificar a veracidade dos episódios contados!

E as pequenas ruas tortas, estreitas e inclinadas da zona histórica de Zurique começam a ganhar lugar no meu coração…

Ghost Walk em Zurique

Aniversário fora do comum

 

Ontem fiz 28 anos. Ainda tenho dificuldade em assumir o número. Na verdade, não é que me sinta a envelhecer, simplesmente os números deixaram de significar algo. É apenas mais um, mas não quer dizer nada. Não estou necessariamente mais madura do que no ano anterior (nem significativamente menos adulta do que estarei no ano que vem), nem sinto a pressão de ter/fazer/ser algo.

Mas este aniversário foi diferente. Primeiro foi longe de Portugal (logo, longe da minha família e amigos) e, apesar de não ser o primeiro ano em que não comemorava, senti falta de poder escolher se o faria ou não.

Depois, foi-me marcada uma entrevista para meio da tarde. Não correu mal, é verdade, e pode ser que o dia de anos tenha dado sorte (nestas coisas tendo a acreditar que não há coincidências e que há pequenos detalhes que podem ser sinais importantes), mas entre a viagem de comboio (a descobrir o caminho) e um atraso de uma hora na entrevista, acho que só me lembrei que fazia anos quando cheguei a casa e tinha o bolo à minha espera.

Surpresa das surpresas: o E. não comprou um bolo de chocolate! É um bolo de cenoura, bastante bom por sinal. E ainda tive direito à primeira das minhas plantas.

Aniversário fora do comum

Procissão de Santo António

Tal como no ano passado, após a euforia que marca a véspera de Santo António em Lisboa (mais propriamente Alfama), decidimos ir à procissão de Santo António, desta vez com a companhia dos meus pais.

Um aviso prévio: eu e o E. não somos religiosos. Não temos qualquer noção de divindade e não somos dados a expressões públicas de devoção.

Dito isto, não deixo de achar engraçado o conceito desta procissão: começa na igreja de Santo António, com a saída do santo respectivo da igreja, e passa depois pela igreja de São João da Praça, igreja de São Miguel, igreja de Santo Estevão, apanha o São Vicente pelo caminho e a última paragem é para ir buscar Santa Luzia. E lá vão os santos todos, por ordem, até à Sé de Lisboa, onde é celebrada a missa.

Ora, tendo em conta a minha (auto-proclamada) ausência de religiosidade, costumo ficar-me pelo entusiasmo de ver os Santos todos a passar em fila, com uma multidão de pessoas atrás e com as personalidades da igreja à frente, a abrir caminho (juntamente com alguns polícias municipais e a banda…). Este ano reparei num pormenor que não me tinha chamado a atenção no ano passado: ao passar nas ruas estreitas de alfama (aquelas que na noite anterior me apertaram e pareciam quase intransponíveis) podíamos ver as janelas enfeitadas pelas melhores tapeçarias que os habitantes tinham em casa.

Ao testemunhar esta procissão e ao ver a devoção das pessoas que nela participam, não consigo deixar de imaginar que provavelmente sempre assim foi e sempre assim será e que, para muitos, será a penitência dos abusos da noite anterior numa mistura estranha (ou talvez não) entre o sagrado e o profano. É uma experiência que aconselho a todos os que querem ver Lisboa no seu melhor, apesar de dolorosa para quem se deitou tarde (ou nem sequer se deitou?) na noite anterior.

Procissão de Santo António

Foi só de raspão…

Na semana passada bateram-me no carro.

Por alguma razão desconhecida, a Avenida da Liberdade estava cortada na quinta-feira passada e, a caminho de casa, vi-me obrigada a voltar para trás nas laterais da Avenida. Havia muito trânsito e o sinal estava vermelho. Estava calor e eu (para poupar no gasóleo) tinha a janela aberta e ia ouvindo a música que vinha do quiosque que estava mesmo ali ao lado, até que senti um ligeiro abanão no carro e, quando olho para o lado, vejo uma mota. Digo “Hey… Acabou de me bater no carro!”.

E é neste momento que me sinto a ser transportada para uma realidade paralela.

O homem montado na mota, com um grande capacete cinzento responde: “Ah… sim… mas foi só de raspão”. Eu sinto que pus a minha cara “ULTRAJE!” e só me sai em seguida algo como “Mas você acha normal isso que me está a dizer?”, sabendo ainda assim que o estrago não havia de ser grave. E eis senão quando aquela pessoa consegue surpreender-me ainda mais com um “Assim como assim, o carro já está partido daquele lado” antes de acelerar no sinal verde.

Sim. O meu carro está ligeiramente lesionado daquele lado, graças a uma manobra em marcha atrás que fiz sem a devida atenção, mas isso não é livre trânsito para raspadelas de motas!

Quando finalmente estacionei o carro e contei ao E. o que se tinha passado, fomos ver como estava o carro. Ao lado do já partido estavam apenas dois arranhões com a cor da mota que me tinha batido. Mas não foi tanto o estrago, foi a atitude que me surpreendeu… Afinal, onde está a empatia pelo outro?

Foi só de raspão…

A maçaneta da porta #2

(a continuação do insustentável peso da burocracia)

Ponto de partida: eu e o E. fomos apresentar queixa à polícia por vandalismo aos nossos carros, e fomos informados pelo agente que registou a nossa queixa que haviam sido apreendidas diversas maçanetas de portas quando o grupo responsável pelos assaltos foi apanhado em flagrante.

Para tentar recuperar algo que, à primeira vista, pode não ter grande valor monetário, mas que na prática nos faz muita falta, ficámos com a indicação do número de processo e que deveríamos contactar o Tribunal no Campus da Justiça (sim, assim no geral).

Primeira tentativa: o E. liga para o número de secretaria geral e pergunta qual o Tribunal que poderia contactar com vista a resolver o assunto. Perguntaram-lhe o número do processo, para de seguida lhe dizerem que deve haver algo de errado, já que o número indicado não era válido. Eu estava ali ao lado e pareceu-me logo que algo estava errado, já que o número de que dispunhamos tinha uma forma que me era familiar. No entanto, deixei passar. Acho, em geral, que tentar resolver mal entendidos por telefone não é muito produtivo.

Após uma segunda tentativa infrutífera, ao vivo (muito devido à hora da visita), um dia em que pensei que estava com vontade para enfrentar a máquina burocrática, decidi tentar resolver a situação.

Peguei no telefone e liguei novamente para o número geral. Disse o número de processo e passaram-me ao Ministério Público. Voltei a contar a história, que tinha sabido do número de processo associado à apreensão de uma série de maçanetas de porta, que queria saber se entre as maçanetas apreendidas estava a minha, e como poderia proceder com vista a recuperar a maçaneta, caso se confirmasse que era a minha. Do outro lado disseram-me que tinha de ligar para o DIAP, para saber em que secção estava o processo.

De novo com o site dos contactos d os Tribunais do Campus da Justiça à frente, liguei primeiro para o número geral. Aqui as coisas começaram a ser menos pacíficas. Atendeu-me uma senhora, mas parecia que estavam 20 pessoas do outro lado. Quando eu começava a falar, ouvia conversas do lado de lá. Até que, à terceira vez de ter perguntado “desculpe, está a ouvir-me?”, recebo um ríspido “mas afinal o que é que pretende?”, tentei ignorar o tom e respondi simplesmente que queria recuperar a minha maçaneta que havia sido apreendida. Nem sequer tive direito a resposta, fui directamente para chamada em espera.

E agora, contexto: por esta altura eu já tinha contado a mesma história 3 vezes. Estava a ficar frustrada porque ainda não tinha percebido quais os elementos que eram relevantes para que eles, do outro lado, me pudessem ajudar. Não sabia, no fundo, se devia continuar a contar a história do princípio ou se deveria passar logo para o meu objectivo.

Atenderam a chamada. Começei com a lenga-lenga: “A minha maçaneta da porta foi roubada…”, e do outro lado respondem: “Foi roubada ou foi furtada? É que roubada foi com violência e furtada foi sem dar por isso”. Detive-me um pouco sobre o conceito de roubo de maçaneta da porta com violência, e vencida pelo cansaço de todo este episódio (já iamos com mais de 20 minutos ao telefone) lá respondi que tinha sido sem dar conta e que apenas queria saber qual a secção que deveria contactar para a recuperar. Dei o número de processo e obtive finalmente a informação de que precisava.

E agora as más notícias (ou os capítulos seguintes): para recuperar o bem apreendido terei de enviar um requerimento por carta à Procuradora responsável pelo caso, com fotografias que comprovem que é a minha maçaneta e esperar.

E entretanto, as queixas apresentadas tiveram este fim:

A maçaneta da porta #2

Provedor da televisão

Enviado ao provedor da televisão, dia 29 de Setembro:

Hoje, dia 29 de Setembro, por volta das 20:15 no programa Telejornal da RTP 1, foi emitida uma reportagem sobre a intenção do actual governo estender o prazo dos contratos a termo certo para 18 meses. 

Na reportagem, a jornalista da RTP afirmou que esta era “uma forma de evitar o despedimento por imposição do código do trabalho”, explicando em seguida que “a actual lei apenas permite a renovação [destes contratos] por 3 vezes no período máximo de 3 anos”, dando a entender, ao contrário do que seria de esperar, que após este período o despedimento seria obrigatório. 

A realidade, todavia, é distinta: findo este prazo, o contrato passa a termo incerto. Uma coisa é aquilo a que as empresas nos habituaram ao longo dos últimos anos, isto é, à resolução dos contratos a termo após a terceira renovação, como descreve a jornalista, apenas com o intuito de não terem trabalhadores com contratos a termo incerto (com tudo a que isso implica, nomeadamente o direito do trabalhador a não ser despedido sem justa causa e, consequentemente, o direito a ser indemnizado em caso de despedimento indevido), coisa diferente é apresentar esta situação como uma inevitabilidade legal, quando não o é. 

A jornalista deveria, isso sim, ter explorado o que resulta efectivamente do disposto no actual Código do Trabalho, tentando aprofundar as razões que levam as empresas a achar mais vantajoso ter o mesmo trabalhador, há 3 anos com contrato a termo certo, por mais 18 meses com o mesmo tipo de contrato, em vez de o contratarem a termo incerto, como resulta (agora sim) da Legislação Laboral. 

Provedor da televisão

O insustentável peso da burocracia

Desde há umas semanas que nos têm vindo a acontecer coisas estranhas.

Começou com uma série de assaltos a carros aqui na nossa rua. O método era sempre o mesmo: partir um dos vidros (preferencialmente o mais pequeno), entrar dentro do carro e não roubar quase nada. Das vezes que nos roubaram algo, eram cabos e carregadores de telemóvel ou isqueiros.

Da última vez fomos acordados pela polícia de manhã. O carro tinha sido assaltado, tal como 8 na mesma rua, todos seguidos. Mais uma vez, partira-se um vidro, entrara-se no carro e não havia bens roubados. No caso particular de uma vizinha que tem um bebé, tinham retirado a cadeira do bebé (que estava no porta-bagagens) e tinham-na colocado no banco, pronta a ser utilizada.

Face a estes acontecimentos, perguntámo-nos várias vezes, que tipo de objectivo estava por detrás desta actuação. Vandalismo? Afirmação? Brincadeiras de miúdos? Bebida a mais?

Para somar a esta situação estranha, aconteceu-nos uma pior. Num dado domingo, dedicado em exclusivo ao dolce fare niente, passado em casa a descansar, sentimos alguma agitação nas escadas que atribuímos à festa de aniversário da senhora de vive no andar em frente. No entanto, quando saímos à noite para jantar, deparámo-nos com algo inédito: não tínhamos maçaneta para puxar a porta. A nossa maçaneta tinha sido roubada enquanto estavamos dentro de casa.

Ao início não entendi o roubo da maçaneta, mas após explicação, percebi que se trata do mercado do cobre. Pelos vistos todos os metais estão em alta, como tivemos oportunidade de testemunhar ao vivo, ao assistir a uma venda de fios de cobre feita em plena Avenida Almirante Reis, na traseira de um carro. Isto explica também outro fenómeno curioso na nossa vizinhança: o desaparecimento das placas de campainhas das portas.

Quando fomos apresentar queixa à polícia (dos dois carros e da maçaneta – sim, da maçaneta) fomos informados que os responsáveis pelos roubos já haviam sido detidos duas vezes, uma delas em flagrante, e que tinham sido soltos pelo juiz das duas vezes. Para mais, na detenção em flagrante, foram apreendidas diversas maçanetas (insólito, suponho).

Agora entramos n’O Processo do Kafka. Ora, recuperar as maçanetas vai implicar uma série de procedimentos judiciais, entre os quais se inclui o reconhecimento e prova de que a maçaneta é nossa.

Não consegui suster o riso. Vamos ver se o consigo fazer enquanto percorro os caminhos do insustentável peso da burocracia…

O insustentável peso da burocracia