Esta vida de senhoria já deu cabo de mim #3

Estava a demorar, mas este post era inevitável.

Depois de ter voltado a arrendar a minha casa, tudo estava a correr bem. Na verdade, havia coisas a falhar que decidi ignorar, mas em geral pareciam-me pessoas em quem se podia confiar.

Depois chegou setembro. Em setembro a renda não veio até dia 8. Já estava eu a preparar-me para mandar alguém lá a casa ver o que se passava, quando finalmente consegui falar com o inquilino, que me disse que tinha mudado de emprego e que só recebia a dia 25, dando-lhe mais jeito pagar mais tarde. Como não me fazia diferença receber no início ou no final do mês, aceitei que o pagamento fosse feito apenas a partir de dia 25 de cada mês, ainda que não tenha ficado muito contente com o facto de ter de ser eu a esmifrar uma razão para o atraso.

Depois chegou outubro. Em outubro recebi uma mensagem alertando para uma infiltração em casa. Em pânico, telefonei para a minha seguradora a pedir um perito e uma contenção de danos. Apesar de ter dado o contacto do meu inquilino para que a marcação fosse mais fácil, as visitas dos peritos apenas foram concluídas 2 meses depois (e após vários telefonemas da seguradora para mim, queixando-se que não conseguiam marcar visitas à casa, e muitas vezes nem lhes atendiam o telefone).

Depois chegou novembro. Em novembro o inquilino não pagou a renda. Quando o E. lhe ligou, o inquilino disse que não ia pagar a renda de novembro e que a renda de avanço passada no início do contrato cobriria este mês. Apesar de termos assumido que ele iria sair, quando lhe mandei o acerto de contas, disse-me que por acaso não estava em mudanças, mas que poderia sair se eu quisesse

E em dezembro regressamos a Portugal para o Natal. Já estava à espera de uma infiltração feia, mas quando cheguei deparei-me com interruptores  e portas de roupeiro partidos e um buraco na parede…

Não sei o que dizer. Ou temos tido muito azar com as pessoas que vão lá para casa, ou não sei. Para ter alguma segurança, decidi que vamos fazer as obras na casa e depois vou entregar a sua gestão a profissionais. Decidi que estes episódios vão acabar e que a vida de senhoria já não vai dar cabo de mim, nem que para isso feche a casa.

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Esta vida de senhoria já deu cabo de mim #3

Mercado de segunda mão #2

 

Tinha de partilhar esta nossa compra maravilhosa para a cozinha.

Na nossa nova casa a cozinha é aberta para a sala e quando a visitámos pela primeira vez, adorámos a solução encontrada pelos anteriores inquilinos de ter uma ilha de cozinha a separar a área de cozinha da sala. Não sabíamos bem qual a melhor solução sem gastar muito dinheiro portanto fomos vendo o que havia no catálogo do IKEA.

Até que, num dos sites que consultamos para a venda de mobília em segunda mão, surgiu esta ilha. Foi uma luta porque ainda não tínhamos casa, nem sequer sabíamos se cabia dentro do carro, e mesmo que coubesse, tinha de ser desmontada.

E foi assim que acabámos por estar uma hora na casa vazia de um casal americano-japonês, a desmontar um móvel enorme do IKEA! Valeu a pena, claramente. É um móvel lindo e as cadeiras, embora não incluídas no negócio inicial, foram adicionadas já estávamos nós na rua. Tendo em conta que ainda não temos cadeiras para a mesa de jantar, têm dado um jeitão!

Mercado de segunda mão #2

O mercado de segunda mão

Numa cidade como Zurique, onde a maioria dos estrangeiros são expatriados que vêm para cá a médio prazo, era mais ou menos previsível que se formasse um mercado de segunda mão interessante.

No entanto, nada me tinha preparado para a dimensão do que encontramos por aqui. A maioria das pessoas quando chega tem necessidade de equipar a casa com mobília, e dependendo do orçamento disponível, poderá recorrer ao Ikea ou a qualquer outra das lojas que existem na cidade (uma das minhas descobertas favoritas é a Fly, que não sendo low cost, não se aproxima nem de perto nem de longe da quantidade absurda de dinheiro que se pode gastar numa loja de decoração na city).

Ora, quando chega a hora de abandonar o país, ou simplesmente quando se quer renovar a casa, não se pode abandonar os móveis antigos na rua, nem tão pouco deixá-los em casa para que o senhorio ou o futuro inquilino lidem com o problema (excepto, claro, quando estes aceitam os móveis antigos). E quem diz móveis, diz também artigos que um dia foram úteis e que agora estão só a ocupar espaço lá em casa: bicicletas, artigos para bébés que entretanto cresceram, wii, televisões, electrodomésticos e até carros.

Este facto faz com que se tenha desenvolvido uma forma de troca/venda/doação de artigos em óptimas condições a baixos preços ou mesmo de forma gratuita.

Até agora, graças a este mercado, já conseguimos (e só falando de móveis de grande dimensão):

  • 2 cadeiras Poang;
  • 1 mesa de jantar extensível do Ikea;
  • 1 mesa de café;
  • 1 mesa pequena, também de café;
  • 1 cama;
  • 1 colchão;
  • e, a jóia da coroa, um armário PAX do Ikea (com todos os acessórios, excepto portas) apenas pelo preço do transporte!

Além dos habituais fóruns e sites na Internet que se dedicam a este tipo de trocas, ficamos ainda de experimentar o espaços físicos que promovem igualmente esta reutilização, como por exemplo, o Im Viadukt, portanto aguardam-se os próximos capítulos da decoração da nossa nova casa!

O mercado de segunda mão

A mudança – Os primeiros dias

Nas mudanças há inevitavelmente choques culturais em potência. No caso da Suiça, um dos que já estávamos à espera tinha a ver com a lavagem da roupa. A casa onde estamos neste primeiro mês, ao contrário de muitas na cidade de Zurique, tem máquina de lavar e secar roupa própria, no apartamento. No entanto, a pessoa com quem partilhamos a casa estava a usar o estendal, pelo que tivemos de estender a roupa na sala que existe para esse efeito, na cave.

Algumas das casas que andamos a ver não tinham as máquinas dentro do apartamento, ficando a lavagem e secagem por conta das salas nas caves. Esta ideia não me parece completamente absurda. As pessoas, quando não têm filhos, fazem cerca de 2-3 máquinas de lavar por semana, assumindo que cada um tem alguma responsabilidade ecológica e que ninguém anda a fazer máquinas de roupa com 3 ou 4 t-shirt.

Os prédios que visitamos e que tinham máquinas comuns possuíam normalmente 2 máquinas de lavar, máquina de secar e salas onde a roupa podia ser estendida, o que me parece equilibrado para um número de inquilinos que raramente ultrapassa os 2 por andar, num máximo de 3-4 andares.

Ainda assim, para evitar conflitos desnecessários a maioria dos prédios tem um horário de utilização das salas de lavagem por cada andar, sendo normalmente um dos dias do fim de semana de utilização livre.

Apesar de não ter sido um factor essencial na nossa procura de casa, não deixo de ficar feliz por a casa para onde vamos mudar no início do próximo mês ter máquinas próprias instaladas. É um conforto saber que poderei utilizá-las quando quiser e que não me vou ter de preocupar com o que os utilizadores anteriores puseram dentro da máquina (um dos conselhos que se dá a quem utiliza estas máquinas “comunitárias” é fazer um programa vazio antes de utilizar as máquinas para a nossa lavagem) ou com os vizinhos bisbilhotarem a minha roupa estendida na cave.

A mudança – Os primeiros dias

Esta vida de senhoria já deu cabo de mim (preparação para o 2º round)

Após cerca de 5 meses, vejo-me novamente com a casa para arrendar.

As coisas não começaram bem, mas fui desvalorizando, em grande parte porque a rapariga do casal que me arrendou a casa era irmã de uma ex-colega de escola, ainda que só o tenha descoberto na assinatura do contrato. Logo nessa altura faltou a caução e a renda de avanço. Achei que, por estarem em dificuldades, não devia exigir-lhes o devido.

Em Dezembro soube que o rapaz, o único com emprego, tinha ficado desempregado. No entanto, não fiquei tranquila já que, em vez de falarem comigo, não tinham passado a renda nem atendiam o telemóvel. Quando finalmente falei com eles, fiquei a conhecer a situação crítica e, face ao que achei ser uma situação de excepção, perdoei metade da renda do mês de Dezembro e recomeçavamos tudo em Janeiro.

Desde Janeiro até final de Março, não houve um único mês em que a renda tivesse entrado a dia 8. Pensamos, eu e o E., que talvez lhes desse mais jeito pagar no final do mês, mas mais uma vez não conseguimos falar com eles. Até que, em Março, decidimos que chegava. O dinheiro não tinha entrado e fizemos um ultimato.

A rapariga foi ter connosco com metade do dinheiro. Supostamente o rapaz viria a seguir. Nunca apareceu.

Combinamos que dia 31 me dariam o resto do dinheiro e a chave. A chave estava na caixa do correio, o dinheiro não.

Neste momento a casa precisa de uns pequenos retoques até poder voltar ao mercado, mas esperamos resolver esta situação o mais depressa possível.

Foi uma má experiência, mas não chegou para me assustar. Penso que da próxima vez não vamos ser tão abertos em relação às necessidades dos outros e vamos pensar mais que “obrigações são obrigações”. De qualquer forma, continuo com a convicção de que estes comportamentos dependem mais da personalidade de cada um do que propriamente da actividade de arrendamento. Vem da maturidade das pessoas a avaliação da capacidade de suportar um determinado custo e a obrigação “interior” de pagar o que se combinou. Chamem-me optimista…

Esta vida de senhoria já deu cabo de mim (preparação para o 2º round)

Esta vida de senhoria (já) está a dar cabo de mim

Em Setembro o assunto do arrendamento da minha casa tinha ficado na escolha do casal que mereceu a nossa concordância. Esta frase pode parecer pretenciosa, no entanto, o arrendamento da minha casa não foi feito de ânimo leve, pelo menos pela minha parte. Isto de meter alguém em nossa casa, com um contrato de, em princípio, cinco anos, não é coisa fácil.

Como os inquilinos não tinham pressa, e eu tinha acumulado muita coisa lá em casa, que acabei por não trazer para a casa nova por se tratarem de coisas que não usava com frequência, acordamos que entrariam apenas no início de Novembro. Pensei eu que teria imenso tempo (um mês) para as mudanças. Claro que a realidade é sempre bem diferente e acabei a encher sacos com livros, roupa e loiça, à última da hora, alguns dos quais se mantêm na traseira do carro do E.

Quis a sorte que a entrega das chaves tenha coincidido com uma reunião de condomínio do prédio, coisa a que eu já não ia há cerca de um ano. Para não variar num condomínio português, há neste momento uma dívida de valor considerável por parte de um proprietário a quem pertencem três casas.

Para esta situação tem contribuído (diria aliás que sempre contribuiu) o facto de este ser pai do construtor do edifício, o que tem como consequência a ausência nas reuniões de condomínio e a falta de pagamento das quotas, coisas que acontece desde a sua constituição. Poderíamos estar perante mais um devedor da sociedade, não fosse o facto de precisarmos de fazer obras de conservação e não termos dinheiro no fundo do reserva, o que implica a emissão de quotas extraordinárias, coisa que se resolveria facilmente com o pagamento por parte daquele senhor…

Claro que já decidimos executar a dívida, mas isso parece dar mais trabalho do que seria de esperar, tendo em conta que não há grande coisa a discutir numa dívida ao condomínio, mas considerando a minha odisseia na recuperação da maçaneta da nossa porta, já nada me surpreende.

Para acabar em beleza, os inquilinos ligaram ontem à noite, já que o exaustor da cozinha estava a deitar um pouco de água. Não queria acreditar, apesar de eles estarem mais ou menos descontraídos, ficaram apenas preocupados. Nunca tinha acontecido, mas tendo em conta que ontem choveu bastante e durante todo o dia, vou ter de esperar e ver se acontece novamente. É um exercício difícil, o equilíbrio entre a preocupação com as condições da casa e a natural desdramatização: para isto ajuda bastante ser inquilina e senhoria ao mesmo tempo. Infiltrações em casas antigas e em tempo de muita chuva são relativamente normais, é tudo uma questão de avaliação da situação em causa.

Vivendo e aprendendo.

Esta vida de senhoria (já) está a dar cabo de mim

Senhorios e inquilinos

Provavelmente nunca me tinha imaginado no papel de senhoria. O mais natural e lógico seria ser inquilina (como acabo também por ser), mas circunstâncias da vida e investimentos feitos no passado trazem-me a este lugar…

E, no entanto, nada do que eu pudesse imaginar me teria preparado para o que aconteceu esta semana, nos dias imediatamente seguintes à publicação de meia dúzia de anúncios que publicitavam a minha casa, a um preço, a meu ver, equilibrado.

No próprio dia da publicação, já tinhamos um conjunto de pedidos de visita que nos animou. Nos dias seguintes, os pedidos multiplicaram-se e tornou-se claro que guardar todas as visitas apenas para um dia seria impossível. Começamos então a marcar para o final dos dias, durante a semana.

Ora, uma das primeiras lições que aprendemos é: nem todos os que contactam com urgência para uma visita aparecem a horas, ou, pior, aparecem sequer… Admito que tenho muito pouca tolerância para atrasos nestas situações, quanto mais para ausências sem uma palavra sequer. Acho que quem não tem responsabilidade para assumir ou cancelar os seus compromissos, não apresenta uma boa imagem de si próprio.

Adiante. De 19 visitas agendadas, compareceram 8, sendo que apenas um deles disse logo que não estava interessado.

Em geral as pessoas gostam que a casa esteja mobilada e equipada. Consigo perceber porquê. A casa era sobretudo procurada enquanto apoio para a profissão, estando a pessoa ausente ao fim de semana para visitar a família. Daí que a perspectiva de ter de mobilar uma casa, gastando ainda mais dinheiro, não pareça muito atractiva.

Outra lição bem aprendida tem a ver com o delay em relação às visitas. Pensámos em publicar o anúncio, esperar para ver quantas pessoas poderiam estar interessadas, marcar visitas para sábado e decidir no domingo. As pessoas tendem a aparecer menos se a visita for marcada com maior antecedência. Podemos afirmar, como resultado desta experiência, que os que estavam realmente interessados, tentaram marcar a visita para o mais cedo possível e não hesitavam: diziam de imediato que estavam interessados na casa.

A nossa tentativa de agirmos de forma justa para todos os envolvidos acabou por nos custar a certeza de alguns dos interessados: face à nossa disponibilidade de decidir apenas 4 dias depois, houve quem continuasse à procura.

Por outro lado, recebemos elogios em relação à nossa escolha de ouvir todos os visitantes antes de decidir alguma coisa. Queixavam-se que muitas vezes, aquando da visita, o imóvel já se encontrava reservado. Do nosso ponto de vista, aquilo que fizemos estava correcto, mas não tenho a certeza que o faça novamente. Compreendo que quem procura casa não possa ficar à espera que o futuro senhorio se decida, mas perder potenciais inquilinos interessantes, muitas vezes para assegurar visitas muito pouco interessantes, não me parece que compense.

No final, mantiveram-se alguns interessados e multiplicam-se ainda pedidos de novas visitas. Amanhã é dia para rever o contrato com o casal que entendemos ser o mais adequado e aquele que nos transmitiu confiança. Ainda é cedo para dizer que a aventura terminou.

Escrevo esta rabujice pensando nos posts que já li sobre o outro lado: o inquilino. É fácil cair em lugares comuns e pensar que fazemos ideia de quem está à nossa frente. Da minha parte, era apenas uma proprietária de um imóvel vazio em Lisboa. Tentei fazer o meu melhor e, pelo caminho, percebi que não é fácil ter uma casa para arrendar.

Senhorios e inquilinos