Blinde Kuh – A experiência

Uma experiência diferente. Blinde Kuh traduz-se literalmente por vaca cega, mas para os portugueses fará mais sentido uma tradução como cabra cega, o jogo infantil, o que nos leva a perceber um pouco mais sobre o conceito do restaurante.

Blinde Kuh é um restaurante no escuro. Não é bem o mesmo que ter a luz apagada. A sala de jantar do restaurante está completamente escura, sem possibilidade de adivinhar sequer sombras ou movimentos.

Os empregados de mesa do restaurante são cegos (o chef não o é) e o mundo, depois de passar a cortina que nos leva da recepção à mesa de jantar, parece completamente adaptado a eles. Nós, os que vemos, sentimo-nos perdidos entre o não conseguir ver e a confusão que os diferentes sons, cheiros e toques nos causam num universo em que não conseguimos ver o que se passa à nossa frente. 

Os papéis invertem-se. Nós, os que vemos, temos de ser levados pela mão até à nossa mesa pelos cegos. Temos de ser ensinados onde estão os talheres e copos, e temos de ser avisados quando o prato de comida ou o copo de cocktail nos é posto à frente.

Para completar a experiência decidi (ao contrário do E.) escolher o menu surpresa. Regra geral, há duas opções por entrada, prato principal e sobremesa que podemos escolher. No entanto, e para mim mais interessante, podemos escolher o menu surpresa, que inclui entrada, prato e sobremesa, mas que só sabemos o que são, ou quando comemos (se tivermos capacidade de analisar os diferentes sabores e texturas), ou no final.

Diga-se de passagem que, para mim, esta opção não significava um risco elevado: sou alérgica a poucos alimentos e não sou esquisita – claro que tenho alimentos mais favoritos que outros, mas raramente me recuso a comer o que quer que seja.

A entrada foi relativamente fácil de adivinhar: não sabia o que era, mas parecia um carpaccio de carnes frias, com laranja (mais tarde descobri que era Toranja). Cinco minutos depois de ter o prato à frente, e após várias tentativas falhadas de apanhar alguma comida com o garfo e faca, desisti e decidi ajudar com os dedos.

O prato principal era peixe (qual? mistério para mim enquanto comia), com tomate cherry (da primeira vez que provei um dos tomates entrei em pânico a pensar que era um olho ou algo do género…) e risotto. Estava maravilhoso e, mais uma vez, de forma a conseguir comer tudo o que tinha no prato (ou mesmo conseguir perceber o que ainda tinha no prato), lá tive de usar as mãos. E as quantidades que conseguia em cada garfada eram também muito pouco constantes. Nunca tinha pensado no papel que a minha visão tinha no acto de comer.

Chegou finalmente a sobremesa e, aí sim, todas as minhas tentativas de adivinhar o que quer que fosse foram por água abaixo. Conseguia perceber que estava a comer uma espécie de mousse (Ricotta com Figo, vim a saber depois) e sabia que tinha por cima um praliné de alguma coisa.

Além da comida ser bastante saborosa, aquilo que mais me impressiona ainda agora é as memórias que tenho do jantar. Lembro-me das conversas e dos sons e lembro-me bastante bem de rir com as parvoíces que eram ditas, e de estar de mão dada ao E. Mas é a primeira vez que não tenho sequer uma única memória visual de uma refeição. É estranho recordar aquela noite e não ver caras à minha volta ou ter a noção de como estávamos todos sentados.

No final da refeição sentíamo-nos bastante cansados. Saí com a sensação que este é um daqueles restaurantes que não serão os nossos favoritos, nem aquele que marcamos quando queremos celebrar um aniversário ou outra data qualquer. Mas é uma experiência que toda a gente deveria ter, pelo menos uma vez. Consigo imaginar-me a voltar com alguém que quisesse experimentar o que é ser cego por umas horas e perceber que aquilo que tomamos como automático e sem importância, pode tornar-se um desafio eliminando um dos sentidos.

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