Do what you love or love what you do?

Quando eu era pequena queria ser muita coisa.

Na maioria das vezes era influenciada por aquilo que via na televisão ou que ouvia os meus amigos a dizer na escola. Queria normalmente ser a heroína de algo: a jornalista, a médica, a advogada, a psicóloga. A que tinha as respostas e tinha orgulho no que fazia. Admito que o mundo dos impostos não estava sequer no meu horizonte por essa altura (e devo dizer que só passou a estar acidentalmente e muitos anos depois, já após acabar o curso).

Depois da indecisão entre tantas coisas diferentes começou a chegar a altura das escolhas: a escolha de agrupamentos que mais tarde passaria a escolha de curso. Não me conseguindo decidir por nada, escolhi o agrupamento que mais hipóteses me dava e um curso que agradava mais aos meus pais do que a mim (ainda que me tenha convencido que me daria os instrumentos para poder adiar a minha escolha profissional e, ao mesmo tempo, me dava os meios para poder fazer aquilo que realmente me agradava, ainda que se tratassem de hobbies). Houve muitas alturas em que quis desistir do curso e perante a pergunta inevitável da minha mãe – “mas vais mudar para que curso? Mas afinal queres ser o quê?” – desistia da ideia de mudar e deixava-me estar.

Cinco anos depois acabei o curso, comecei o mestrado numa área que, no fundo, sabia que não ia seguir (porque implicava necessariamente uma série de estágios não remunerados ou muito mal pagos, e sabia que não tinha os meios para o fazer) e desde aí fui experimentando caminhos o máximo que pude, e felizmente consegui experimentar muita coisa. É claro que toda a riqueza que retirei das experiências profissionais que tive, escondia um outro lado mais marcado pela ansiedade: a sensação, no final de cada experiência (ou um pouco antes de a abandonar), de que ainda não tinha encontrado ainda o meu caminho.

E é aqui que encontro aquilo em que tenho pensado bastante. Afinal qual é o meu caminho? Que ideia é esta de que vai haver uma actividade que me vai fazer sentir tão realizada que vai eliminar todo o cansaço que marca o dia-a-dia? E onde a fui eu buscar?

Isto a propósito deste artigo que o E. me enviou esta semana, sobre como a máxima estranha de “procura uma actividade que gostes e nunca terás de trabalhar na vida” nos fez menos tolerantes às agruras normais da vida do trabalho. E acho que é no fundo isto que sempre me fez sentir insatisfeita e em constante procura de algo melhor – algo que me fizesse sentir que afinal aquilo que me ocupava 8h por dia não era verdadeiramente trabalho.

A televisão, o cinema e as revistas estão cheias de glorificação de pessoas que vivem a sua vida, e por vezes enriquecem, a desenvolver actividades que mais parecem passatempos que outra coisa, no entanto isso faz com que aqueles que têm trabalhos ditos normais sintam que estão de certa forma a desperdiçar a sua vida, quando poderiam estar a dedicar o seu tempo a um dos seus hobbies e a ganhar dinheiro com isso. Sem falar em toda aquela corrente que diz que o dinheiro não é o mais importante.

Não há nenhum problema em gostar daquilo que se faz. Aliás, esse deve um dos factores principais quando avaliamos a nossa vida profissional. Mas gostarmos daquilo que fazemos é composto por vários elementos: os colegas, o ambiente, os meios que nos são dados, o salário, etc.

O artigo faz uma análise interessante sobre quem ganha afinal ao tentar convencer-nos que não devemos sentir que estamos a trabalhar quando trabalhamos, que devemos fazer aquilo que gostamos ainda que não seja pago. E toda essa análise fez-me lembrar de um episódio com uma pessoa com quem partilhei mais de perto a experiência do mestrado.

Sendo a J. a pessoa que fez o mesmo mestrado que eu mas que sabia que iria continuar naquela área, partilhei com ela o facto de estar a pensar em dar passos para voltar a essa área quando decidi dar um salto no escuro na minha vida profissional. No entanto, por uma questão de sorte, acabei por arranjar um emprego mais de acordo com a minha experiência profissional anterior. Ao tentar perguntar por novidades, aquilo que lhe saiu foi algo do género: “então ainda estás à espera de resposta do sítio X ou agora já não te interessa porque encontraste emprego?”. Não levei muito a sério, porque já conheço o seu tom, mas na altura senti-me culpada por escolher algo que não era digno de respeito por parte de alguém que sentia que estava a seguir o seu caminho por paixão.

Foi a primeira vez que senti que haveria algo de errado nesta lógica, como se me fosse exigido que para ser genuína deveria estar disposta a tudo para seguir uma área que sempre achei interessante mas que não me dava oportunidades de futuro. Afastando-me emocionalmente do assunto, tenho de admitir que o melhor trabalho é aquele que nos estimula, que nos compensa do esforço e finalmente, que nos dá tempo e meios para sermos uma coisa diferente quando saímos.

Anúncios
Do what you love or love what you do?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s