Kiev, Ucrânia | Setembro 2013

Maidan Nezalezhnosti

Depois de uns dias em Itália, decidimos rumar a leste e visitar uma cidade que já estava na lista de to do do E. há algum tempo. Eu não tinha grandes expectativas, atá porque, confesso, era um pouco ignorante sobre a história e potencial de Kiev.

Kiev é uma das cidades mais antigas da Europa de Leste, tendo feito parte da URSS e sido ocupada durante a II Guerra Mundial, guarda até hoje marcas de cada uma das épocas pelas quais passou. Um dos meus maiores receios, a início, tinha a ver com segurança, mas logo percebi que o meu medo não tinha razão de ser.

Por outro lado, uma das grandes dificuldades (que substimei) tem a ver com a lingua e alfabeto. Noutros países, mesmo que não saibamos a língua, podemos mostrar um papel com o nome das ruas ou hotel que procuramos. No entanto, em Kiev o inglês não é uma língua corrente e o alfabeto é completamente diferente. Assim sendo, aconselho um estudo aprofundado sobre a localização do hotel antes da chegada.

Catedral Sta. Sofia

Ficamos alojados num hotel o mais central possível, junto da Praca da Independencia (ou Maidan Nezalezhnosti) com acesso privilegiado a quase todas as atracções.

Começámos pelas principais catedrais ortodoxas. Nunca tinha entrado numa catedral ortodoxa antes e admito que fiquei muito impressionada: o cheiro do incenso, os cânticos dos sacerdotes, as imagens omnipresentes dos santos e o método das orações que as pessoas utilizam (uma espécie de circuito entre as várias imagens dos santos), criam um ambiente único.

Ao avançarmos pela cidade, encontramos outras das atraccoes principais: os memoriais à Segunda Grande Guerra e ao Soldado Desconhecido, e Pechersk Lavra, um conjunto de mosteiros ortodoxos e museus, construídos sobre um complexo de grutas, onde se pode ver um dos museus mais pequenos e interessantes da cidade – o museu das micro-miniaturas.

Mother Motherland
Memorial da II Guerra Mundial
Monumento ao soldado desconhecido

A melhor forma de viajar pela cidade é, sem dúvida, o metro, ainda que as estações não estejam pensadas para as voltas turísticas. Ainda assim, a arquitectura do metro, as galerias subterrâneas e a permanência da imagética russa/soviética fazem com que as caminhadas que temos de fazer entre uma estação e outra valham a pena.

No penúltimo dia fomos a Zona de Exclusao de Chernobyl.

Pripyat
Pripyat

A visita da Chernobyl/Pripyat era uma das principais razões para a nossa viagem a Ucrânia.

Escolhemos uma das empresas licenciadas com algum tempo de antecedência (sendo um complexo militar e uma zona de exclusão, as autorizações de visita têm de ser solicitadas com, pelo menos, 2 semanas de antecedência). Lemos bastante sobre a radiacao e os perigos a que estaríamos sujeitos e, apesar de algumas reticências da minha parte, avançámos com a visita. Sobre os niveis de radiacao: aqui.

Apesar da visita ser organizada por uma agência privada, assim que entramos no primeiro check point (raio de 30 km) passamos a ser acompanhados por uma pessoa que vive dentro do perímetro de seguranca e que é autorizada oficialmente a fazer a visita (possivelmente militar?). A viagem de Kiev leva cerca de 2 horas e é feita de autocarro. Durante o caminho é exibido um documentário sobre as primeiras horas do desastre nuclear.

A primeira paragem foi feita em Chernobyl (a cidade ainda se encontra dentro do perímetro de 30km – as leituras no Geiger counter eram as mesmas que em Kiev). Vimos alguns memoriais ao acidente nuclear e uma parte abandonada da cidade – a cidade é hoje em dia, um dormitorio para os militares e trabalhadores da zona de exclusão, daí que apenas alguns prédios tenham sido mantidos.

Depois de uma pausa, dirigimo-nos para a central nuclear, passando pelo check point do raio de 10 km. Aqui as leituras (a centenas de metros do reactor destruído) subiam para 10 vezes as que eram registadas em Chernobyl. Na curta estadia pudemos ver os trabalhos para a construção do novo sarcófago. Quando nos fomos embora, estavam os trabalhadores a mudar de turno (sim, para alguns, aquele local faz parte do quotidiano).

Passámos então a última paragem da nossa visita: mais um check point e estamos em Pripyat. Pripyat era a cidade onde viviam os trabalhadores da central nuclear de Chernobyl e suas familias antes do acidente. Conhecida por cidade fantasma, levou 2 dias até ser evacuada, altura em que as leituras de radiação atingiam já níveis inimagináveis. A cidade foi abandonada e isolada pelas autoridades, tendo mantido os cartazes, mobília e preparativos para as comemorações do 1º de Maio – a poucos dias do momento do acidente.

Ao sair do autocarro sentimos uma mistura entre ter voltado 20 anos atrás no tempo e uma sensação de estarmos num mundo pós-apocalipse. Na verdade a natureza já tomou conta de Pripyat há muito tempo: os prédios estão tomados por vegetação e as estradas são quase intransitáveis (não é permitido aos visitantes entrar nos prédios, já que há riscos de derrocada).

Por outro lado, a imagem da cidade não corresponde ao que realmente se passou – a evacuação foi feita de forma ordeira, no entanto o interior dos edifícios foi pilhado após a queda da União Soviética e todos os objectos de valor foram roubados e transportados para fora da zona de exclusão (provavelmente vendidos no mercado negro), com a conivência dos responsáveis pela segurança da cidade. Infelizmente isto dá um aspecto inseguro e caótico a uma cidade que, de outra forma, poderia servir para testemunhar uma das mais importantes épocas da história do século XX.

Pela minha parte, limitei-me a andar pelos caminhos ao ar livre e a subir ao edifício da piscina, ainda que tenha saído para a rua o mais rápido possivel. As leituras no Geiger counter eram bastante baixas (com a excepção do musgo no chão, que é aparentemente uma esponja natural de radiação) e desde que nao se tocasse em nada dentro dos edifícios, o trajecto era bastante inofensivo.

Há qualquer coisa de triste naquele local: pensar que houve famílias inteiras obrigadas a deixar a sua vida para trás de um dia para o outro. E depois pensar que aqueles que tomam as decisões mais importantes da nossa vida (nomeadamente, apostar numa forma de produção de energia que, apesar de ter grandes vantagens, comporta grandes perigos) não têm afinal grandes “planos B” quando as coisas correm mal. Pensamos que estamos seguros porque, de certeza, alguém terá um plano para lidar com um acidente desta escala, e afinal não é bem assim.

Visitar Chernobyl é mais do que uma aventura: é ver a história do mais importante desastre do século XX nos olhos e interiorizar as suas consequências.

E para os que pensam que isto foi há 30 anos e que hoje seria diferente, basta lembrar Fukushima e recordar as centrais nucleares ainda existentes por toda a Europa. E aperceber-nos, no fundo, que as diferenças não são assim tão grandes.

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