As culturas coco e pêssego

 

A última grande compra de livros que fizemos incluía alguns sobre a cultura e a vida na Suiça. Estou neste momento a ler o Beyond Chocolate, que fala sobretudo das diferenças culturais entre a Suiça e a cultura anglosaxónica.

O ponto de partida é a diferença entre a “cultura coco”, como a Suiça, em que as pessoas apostam em relações de longo prazo e portanto não se mostram muito abertas a fazer amizades quando acabam de conhecer alguém, e a “cultura pêssego”, mais aberta a criar laços de amizade light desde o primeiro momento.

Por exemplo, uma pessoa que venha de uma cultura coco, à partida, dificilmente convidará alguém que acabou de conhecer para a sua casa. Se encontrar um vizinho em dificuldades no transporte de alguma coisa nas escadas, não oferecerá ajuda por ter medo de estar a intrometer-se na vida da outra pessoa, e numa conversa de café, não partilhará pormenores da sua vida privada.

Por outro lado, uma pessoa que venha de uma cultura pêssego é muito mais propensa a iniciar uma conversa informal com um desconhecido, partilhando pormenores da sua vida e pode até acabar por convidar a outra pessoa  para uma refeição em sua casa, ou para uma festa privada.

Tendo eu crescido num país latino, seria fácil concluir que seria mais uma pessoa pêssego do que coco. No entanto, o que estes (quase) dois meses me têm mostrado é que estes universos não são estanques.

Na verdade, posso até recuar a momentos anteriores a estes dois meses. Ao contrário da maioria das pessoas que conheço, nunca me senti à vontade para partilhar a minha vida privada com os meus colegas de trabalho, sendo muito poucos os que chegaram a conhecer os meus amigos. A mistura entre a esfera pessoal e profissional nunca foi algo que fizesse sentido para mim.

Por outro lado, nunca convidei para minha casa pessoas que mal conhecia, e quando o fiz nunca foi com grande à vontade (incluindo o pânico de arrumar coisas em casa que eu classificava como demasiado privadas para serem vistas por pessoas fora do meu círculo). Claro que estas características são contrárias a algo que é bastante valorizado hoje em dia: o networking, e portanto não são muito populare. Houve pessoas que ao longo dos anos conquistaram o acesso ao meu espaço pessoal, muitas delas desde o primeiro momento (o que não deixava de ser estranho), mas na maior parte dos casos a minha atitude era mais coco: as amizades só valem a pena quando são a longo prazo e, portanto, levam tempo a desenvolver-se.

Por tudo isto, não me faz confusão este aspecto da cultura Suiça. Ainda assim, não posso deixar de notar que esta nossa experiência tem mostrado que nem tudo é tão definitivo como estas duas categorias podem levar a crer: as pessoas fazem conversa de café e mostram-se interessadas pela nossa experiência de vida, o que não quer necessariamente dizer que temos de trocar contactos no final. As pessoas são bastante helpful quando vêem alguém em dificuldade, seja com sacos de compras ou com carrinhos de bébé. E o respeito pelo espaço privado é algo positivo e incluí o respeito pelos horários de trabalho e pelo espaço que representa a nossa casa.

No curso de alemão que frequento há uma boa mistura de povos latinos. Passados poucos dias do início das aulas, uma das raparigas falou em fazermos um jantar internacional em casa dela. Tinha acabado de começar a ler este livro e não consegui deixar de achar graça a como podemos encontrar estes dois tipos de culturas com alguma facilidade na vida real. E pela primeira vez não pensei algo como “too much“…

Anúncios
As culturas coco e pêssego

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s