O insustentável peso da burocracia

Desde há umas semanas que nos têm vindo a acontecer coisas estranhas.

Começou com uma série de assaltos a carros aqui na nossa rua. O método era sempre o mesmo: partir um dos vidros (preferencialmente o mais pequeno), entrar dentro do carro e não roubar quase nada. Das vezes que nos roubaram algo, eram cabos e carregadores de telemóvel ou isqueiros.

Da última vez fomos acordados pela polícia de manhã. O carro tinha sido assaltado, tal como 8 na mesma rua, todos seguidos. Mais uma vez, partira-se um vidro, entrara-se no carro e não havia bens roubados. No caso particular de uma vizinha que tem um bebé, tinham retirado a cadeira do bebé (que estava no porta-bagagens) e tinham-na colocado no banco, pronta a ser utilizada.

Face a estes acontecimentos, perguntámo-nos várias vezes, que tipo de objectivo estava por detrás desta actuação. Vandalismo? Afirmação? Brincadeiras de miúdos? Bebida a mais?

Para somar a esta situação estranha, aconteceu-nos uma pior. Num dado domingo, dedicado em exclusivo ao dolce fare niente, passado em casa a descansar, sentimos alguma agitação nas escadas que atribuímos à festa de aniversário da senhora de vive no andar em frente. No entanto, quando saímos à noite para jantar, deparámo-nos com algo inédito: não tínhamos maçaneta para puxar a porta. A nossa maçaneta tinha sido roubada enquanto estavamos dentro de casa.

Ao início não entendi o roubo da maçaneta, mas após explicação, percebi que se trata do mercado do cobre. Pelos vistos todos os metais estão em alta, como tivemos oportunidade de testemunhar ao vivo, ao assistir a uma venda de fios de cobre feita em plena Avenida Almirante Reis, na traseira de um carro. Isto explica também outro fenómeno curioso na nossa vizinhança: o desaparecimento das placas de campainhas das portas.

Quando fomos apresentar queixa à polícia (dos dois carros e da maçaneta – sim, da maçaneta) fomos informados que os responsáveis pelos roubos já haviam sido detidos duas vezes, uma delas em flagrante, e que tinham sido soltos pelo juiz das duas vezes. Para mais, na detenção em flagrante, foram apreendidas diversas maçanetas (insólito, suponho).

Agora entramos n’O Processo do Kafka. Ora, recuperar as maçanetas vai implicar uma série de procedimentos judiciais, entre os quais se inclui o reconhecimento e prova de que a maçaneta é nossa.

Não consegui suster o riso. Vamos ver se o consigo fazer enquanto percorro os caminhos do insustentável peso da burocracia…

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